quinta-feira, 6 de novembro de 2008

BAHIA IGNORA CAUSAS DE ÓBITOS



De acordo com dados do Ministério da Saúde (MS), registros imprecisos, tecnicamente chamados de Causas Mal Definidas (CMD) de mortalidade, ainda comprometem avaliação do estado de saúde da população – como a da possível contaminação radioativa por urânio em Caetité (a 757 km de Salvador).
O Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) desconhece a causa de 18,6% das mortes ocorridas no Estado em 2006, segundo a central de dados do MS (Datasus), bem acima da média nacional, que é de 8,4%. A Bahia só está atrás do Amazonas (21%). Em Caetité, segundo dados do Estado, o índice em 2007 é da ordem de 39,3%.
Apesar de os dados não estarem totalmente consolidados, o quadro nacional, com base em registros obtidos desde 2000, permite observar que a situação é pior nas regiões Norte e Nordeste (média de 12,8%), em relação às demais – a média das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste é de 6,1%.
Um cálculo da Diretoria de Informação em Saúde (DIS) da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab), por sua vez, indica que o percentual de CMD deve fechar 2006 em 15% na Bahia, onde a cobertura dos óbitos (registros efetivados) foi de 76% do total projetado pelo IBGE, de 88.727 em 2006. Significa dizer, em números absolutos, que, dos 67.5 mil óbitos efetivamente notificados pelo sistema nacional, 12.569 casos (18,6%) tiveram Causas Mal Definidas. Os 21,1 mil óbitos restantes não entraram nos registros oficiais. As coisas já foram piores na Bahia. Em 2000, as Causas Mal Definidas equivaliam a 30% dos óbitos notificados. Este índice caiu para 25%, em 2005, e 18,6% nos dados mais atuais (ou 15% segundo projeção da Sesab). Segundo a Portaria de nº 1.172/04 do MS, compete às prefeituras a gestão do componente municipal do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde para promover a busca ativa de Declaração de Óbito (DO, o atestado de óbito) e de nascidos vivos nas unidades de saúde e cartórios (e cemitérios) existentes em seu território, além da vigilância epidemiológica e monitoramento de mortalidade infantil e materna. Várias falhas, contudo, ocorrem para prejudicar a precisão desses dados, tanto na esfera médica quanto na legal. Entre os entraves para ampliar a cobertura e a redução das CMDs estão os cemitérios irregulares no interior, rotatividade de pessoal, questões legais relativas ao preenchimento da DO. Entraves – Um exemplo recente é a dificuldade encontrada pela Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec), ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), contratada pela Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para investigar a possível contaminação de urânio na região de Caetité (46 mil habitantes) e Lagoa Real (13 mil habitantes, a 731 km da capital). A Fiotec prepara estudo comparativo sobre a saúde de trabalhadores e da população e já identificou entraves para obter dados comparativos relativos à causa de mortalidade no estudo epidemiológico que realiza nos municípios. A diretora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador (Cesat), Letícia Nobre, diz que a falta de diagnósticos das mortes “não é particularidade da Bahia, embora sejamos um dos piores do Brasil. E não é só em Caetité que existe o problema”. Ela cita que, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), mesmo nas causas externas de acidentes de trânsito, preenchidas no atestado de óbito pelo Instituto Médico-Legal, há informações não computadas. “São registradas como traumatismo, ferimento, e não fica claro que se trata de acidente de trânsito, pois não houve notificação anterior para informar que o acidente ocorreu”.