
Há pelo menos seis anos, 180 famílias de Madre de Deus, a 41 km de Salvador, estão expostas à poluição. Somente há seis meses, o problema veio à tona por causa de uma obra no terreno contaminado, vizinho às moradias. Um laudo que atestava o problema e recomendava a urgente remoção dos moradores está engavetado na prefeitura desde 2002.
A contaminação foi gerada pelo vazamento de compostos organoclorados ao redor do antigo tanque da Companhia de Carbono Coloidais (CCC). Em contato com o solo, solventes halogenados, principalmente hidrocarbonetos clorados, e hidrocarbonetos aromáticos derivados de petróleo, especialmente o benzeno, se espalharam em um raio de 32.074 m², sob as moradias próximas.
A exposição contínua a esses produtos é considerada de alto risco e pode causar danos no sistema nervoso central e no sistema de defesa do organismo, de acordo com a coordenadora do Laboratório de Química Ambiental da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Tânia Tavares.
Ao se queixarem do incômodo provocado pela obra que está sendo feita no local, os moradores vizinhos ficaram sabendo que há seis anos eles não deveriam mais estar ali. “Sabia que era um terreno contaminado, mas não sabia da gravidade”, disse Fábio Souza, 30 anos, 20 dos quais na Rua Santos Dumont, a poucos metros do terreno.Ele e outros garotos brincavam sobre os resíduos sem saber que estavam expostos a produtos tóxicos. A moradora Mariza Souza, 56 anos, diz que usou material retirado do terreno na construção de sua casa, na mesma rua. “A casa ficou quase dois anos com o cheiro do produto”, conta ela. Preocupada com os nove netos criados ali, à solta no terreno, ela questiona: “Como é que o lugar é contaminado e fica aberto pra todo mundo entrar?”.Dossiê – Na Rua Santos Dumont, o odor dos produtos químicos é persistente. Até as obras de remediação começarem, não havia barreiras para o acesso de pessoas, nem qualquer tipo de aviso do perigo. A gravidade do problema, contudo era do conhecimento da prefeitura desde que a empresa Hidroplan Hidorgeologia e Planejamento Ambiental, sediada em Cotia, no Estado de São Paulo produziu o documento “Dossiê de Remediação do Conjunto Habitacional Quitéria de Madre de Deus”.A empresa foi contratada para esclarecer o problema que fora detectado pelo então Centro de Recursos Ambientais (atual Instituto do Meio Ambiente), em 2000, e que levou à demolição de um conjunto habitacional construído no local pela prefeitura. Com pretensões de dar alguma destinação ao terreno, desapropriado, a prefeitura pagou R$ 80 mil para a avaliação técnica, que ratificou o que o CRA constatou.Apesar de o estudo ter sido encomendado pela prefeitura, não surtiu efeito algum. As pessoas continuaram no local, e expostas à contaminação. Até mesmo a atual prefeita (reeleita), Nita Oliveira (PMDB) que, na época, era presidente da Câmara, afirma, hoje, que não sabia de nada. Ela alega que o laudo da Hidroplan nunca foi divulgado. Nita explica que, somente agora, a prefeitura vai começar as ações na área de saúde para atender à população. Ela informou que novos estudos precisam ser feitos para avaliar a real necessidade de remoção dos moradores.A ex-prefeita, Carmen Gandarella (PT), no poder de 1997 a 2004, informou, por e-mail, que os estudos contratados à Hidroplan foram uma “demonstração inequívoca de que ao tomar conhecimento da existência de tal contaminação, buscou saber não só o tipo da mesma como também a sua extensão”. Segundo ela, com o laudo na mão, “passamos por uma trabalhosa missão, que era identificar a empresa responsável pela contaminação, a fim de que a mesma arcasse com os custos da descontaminação, bem como com a necessária relocação das pessoas”.Depois de um ano e meio de várias reuniões entre o município e o CRA, o seu mandato chegou ao fim, sem que o problema fosse resolvido. Segundo ela afirma na nota, a situação teria sido relatada para a atual gestora.
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