
O aposentado João Jacinto Pereira, de 66 anos, está com medo das ameaças que vem sofrendo desde que encontrou na quarta-feira passada, um malote do Banese que caiu de um avião em um terreno no bairro Santa Maria, onde ele cria seu único bem: uma burrinha. De imediato ele procurou a delegacia, onde foi verificado que no pacote havia dois lotes apenas de cheques, totalizando cerca de R$ 95 mil. Mas como alguns veículos de comunicação noticiaram que o aposentado encontrou dinheiro, agora ele sofre com ameaças e gozações. “A TV mostrou errado. Era tudo só em cheque. Agora todo mundo me pára e pergunta se eu sou doido de achar dinheiro e entregar. Teve um até que disse que eu merecia uma surra. Explico que só tinha cheque e que entreguei porque não era meu”, argumenta Jacinto. A delegada que recebeu o malote, Viviane Pessoa, confirmou que havia dois lotes apenas de cheques, um com 108 cheques totalizando R$ 80 mil e outro com 109 cheques que somavam R$ 15 mil. “Não sabia que ele estava sendo ameaçado. Vou chamá-lo para conversar e vermos o que pode ser feito”, disse a delegada, preocupada com o que pode acontecer ao aposentado. O malote foi encontrado por volta das 6 horas da manhã, da quarta-feira. No local, Jacinto cria uma burra, seu único bem, que não custa mais de R$ 100. “Comprei essa burrinha para trabalhar. Tinha uma roça perto da lixeira, mas tinha muito vagabundo roubando por lá e me ameaçaram de morte. Então vendi a rocinha e a burra deixo à noite no quintal de casa e de dia aqui nesse terreno. Mas tenho que ficar sempre de olho”, explicou Jacinto, que mora no bairro Santa Maria há mais de 25 anos e sobrevive apenas do salário mínimo. A casa onde ele mora é da esposa. Ao levar a burra para o terreno, que fica bem em frente à nova delegacia, Jacinto conta que pegou uma faca para cortar um pouco do mato, evitando que a burra se enganchasse. “Então vi aquele pacote, mas não dei muita importância porque achava que era lixo. Quando cheguei mais perto vi o emblema do Banese. Achei que alguém tinha roubado e jogado ali. Quando cortei vi dois pacotes de cheques amarrados. Então chamei o vizinho e fui logo à delegacia para contar. O policial pediu que eu voltasse com o pacote”, revelou Jacinto. Mesmo sem valor aparente, se o malote caísse em mãos erradas poderia ser usado para outros fins. “Esses cheques poderiam ser usados por fraudadores, para aplicação de golpes”, alertou a delegada. A equipe do JORNAL DA CIDADE entrou em contato com a presidência do Banese e foi informada que o outro malote que caiu do avião, provavelmente no bairro Atalaia, ainda não foi encontrado. O presidente do Banco, João Andrade, disse que ainda está sendo avaliado um meio de recompensar o aposentado por sua honestidade. Honestidade “Se fosse dinheiro eu não sei se ia usar. Todo mundo sabe que sou pobre, não tenho nada e, de repente, aparecer com um monte de dinheiro assim. Se me derem uma gratificação eu recebo satisfeito porque acho que mereço”, comentou Jacinto. A delegada disse que já foi bastante inusitado um malote cair de um avião e ainda mais ser entregue a polícia em um bairro tão carente e com um histórico de violência. “Ele foi muito honesto realmente. Se fosse outra pessoa com más intenções ele não teria entregado”, opinou a delegada Viviane Pessoa.
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