
Mama África. Imperatriz da Canção Africana. Ativista antiapartheid. Essas e outras designações dão apenas uma pálida idéia da importância da cantora sul-africana Miriam Makeba, que morreu na noite de domingo último, na Itália.
Makeba, muito conhecida no Brasil pelo hit mundial Pata Pata (resgatado pela sumida cantora Daúde, nos anos 90), tinha acabado de se apresentar na cidade de Castel Volturno, durante um concerto em desagravo ao escritor Roberto Saviano, condenado à morte pela Camorra, a máfia napolitana.
A cantora havia se apresentado durante 30 minutos. "Foi a última a sair do palco, depois de outros cantores. Houve um bis e, neste momento, alguém perguntou se havia algum médico entre o público. Miriam Makeba havia desmaiado e estava no chão", contou um fotógrafo presente ao evento, segundo as agências de notícias. Ela ainda foi levada às pressas para uma clínica local, mas foi vencida pelo ataque cardíaco diagnosticado pelos médicos. Assim que soube de sua morte, o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela soltou um comunicado enaltacendo Makeba e sua importância para seu país: "Foi a primeira-dama da canção da África do Sul e ganhou, merecidamente, o título de Mama África. Foi a mãe de nossa luta e de nossa jovem nação". Pata Pata – Nascida em 4 de março de 1932 em Johanesburgo, Miriam Zenzi Makeba era filha de uma sangoma (curandeira) da tribo Swazi. Seu pai era de outra tribo, Xhosa. Logo de cara, passou seis meses do seu primeiro ano de vida na cadeia com a mãe, perseguida por conta de suas atividades curandeirísticas. Começou a cantar ainda criança, quando freqüentou o Kilmerton Training Institute, em Pretoria. Sua primeira gravação profissional foi aos 21 anos, quando ainda integrava o grupo vocal The Manhattan Brothers. Pouco depois, saiu e se juntou ao grupo feminino The Skylarks. Gravou, ainda em 1956, em Johanesburgo, a canção Pata Pata, que só viria a se tornar um estrondoso sucesso no mundo inteiro em 1967. Seu nome começou a circular antes disso, quando apareceu no documentário antiapartheid Come Back, Africa (1959), um grande sucesso no festival de Veneza daquele mesmo ano. Já em 1960, o governo racista de seu país revogou sua cidadania e seu passaporte, exilando-a durante 30 anos. Ela só descobriu quando tentou voltar à África do Sul para o enterro da mãe e foi impedida. Cidadã do mundo – Em reação, nada menos que dez países ofereceram cidadania à artista. Depois de uma excursão de 18 meses com o espetáculo African Jazz and Variety, chegou aos Estados Unidos, onde conheceu o cantor negro americano Harry Belafonte, que havia conhecido em Londres e com quem estabeleceu uma parceria, gravando diversos álbuns em dupla. Mas mesmo nos EUA, Makeba foi perseguida por suas posições políticas, especialmente após se casar em 1968 com o líder Pantera Negra (grupo radical negro) Stokely Carmichael. Por conta de sua associação com um homem considerado praticamente um terrorista, seus concertos nos EUA foram cancelados, bem como seu contrato com a gravadora RCA. A solução foi se mudar com Carmichael para a Guiné, onde o casal ficou íntimo do presidente Ahmed Sékou Touré e sua primeira-dama. Esteve na ONU para falar dos horrores do apartheid em duas ocasiões: em 1964 e em 1975. Em 1974, Miriam Makeba se apresentou com James Brown e outras estrelas da black music na ocasião da inesquecível luta entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire. Em 1990, a pedido de Nelson Mandela, voltou à África do Sul após 30 anos no exílio. Foi recebida com honras de rainha. Em 1992, participou do filme Sarafina!, sobre tumultos ocorridos em Soweto. Seu último álbum, Homeland (2000), foi indicado ao Grammy de Melhor Disco de World Music.