
Integrantes da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau (Abam) andaram da Praça da Cruz Caída – onde fica a sede da entidade e onde querem continuar promovendo shows – até a prefeitura nesta terça-feira, 18. Com as saias rodadas e colheres na mão, queriam falar com o prefeito João Henrique sobre a utilização da praça no Centro Histórico de Salvador, que vêm cuidando, pelo programa Adote Uma Praça. Semana passada, a Secretaria de Serviços Públicos (Sesp) restringiu o uso daquele espaço a eventos grátis.“Assim que o prefeito chegar de Brasília falará com as baianas”, disse Miriam Leopoldina, pedindo paciência a elas. Sobre o entendimento do secretário da Sesp, Fábio Mota, a assessora respondeu que a partir de agora “o caso está na Justiça”.Sábado, a desembargadora Daisy Lago Ribeiro Coelho concedeu liminar às baianas para que “as autoridades coatoras (secretários de Infra-Estrutura e de Serviços Públicos) se abstenham de intervir ou impedir a realização do Verão Baianas Praça Cruz Caída, entre 13 de novembro de 2008 e 19 de fevereiro de 2009, sob pena de multa de R$ 1 mil, até a deliberação final do Tribunal de Justiça”.“Ela ficou doente, ficou desacordada por três horas. E perdeu a voz por causa dessa confusão toda. Hoje, só vai dar entrevista se for para falar do Dia das Baianas (25 de novembro)”, disse a vice-presidente da Abam, Rita Santos, referindo-se à presidente, Maria Leda Marques. “Isso é tudo que eu não gostaria que estivesse acontecendo. A gente não cobra dos artistas (pelo uso do espaço). O pessoal colabora. É a mesma coisa com o Mercado Modelo. O Batifun está fazendo show lá todo sábado. A Cruz Caída é a mesma coisa que o Forte São Marcelo, é espaço público. Nós somos voluntárias. A gente dorme no chão para poder fazer o que é preciso nas festas. O pessoal acha que a prefeitura paga tudo para a gente”, disse a vice-presidente.“Adotar uma praça não dá direito a fazer show cobrando ingresso. Tudo isso eu já disse. Existem cerca de 120 praças adotadas em Salvador ”, informou o superintendente de Parques e Jardins, Ubirajara Velame. O gerente de patrimônio da Santa Casa da Misericórdia, Junot Velame, disse que espera que a prefeitura recorra da decisão da Justiça. “Nós não somos parte desse processo específico. Estamos estudando como proceder”, disse. “Espero que o bom senso prevaleça para o benefício da cidade”, refletiu o gerente, tentando explicar que a vibração do som na praça afeta o acervo barroco da igreja, do memorial e do museu da Misericórdia.“Este ano, há uma empresa encarregada pela produção dos shows”, observou o secretário Fábio Mota. Há quase três anos, as baianas vêm permitindo que grupos de pagode e outros ritmos musicais façam shows no espaço público que estão cuidando. Mãe Jaciara – As baianas foram à prefeitura acompanhadas pela ialorixá Jaciara Ribeiro, do Axé Abassá de Ogum, e seu advogado, que ganhou no Supremo Tribunal Federal uma questão contra um grupo religioso, que foi condenado a pagar indenização por ter se utilizado da imagem de mãe Gilda, ialorixá e mãe de Jaciara, de forma indevida, como charlatã.“Acho que o povo negro já é tão excluído, já é usado tanto como fonte por tantos artistas. As baianas mandaram uma carta pedindo ajuda para o Dia das Baianas e o prefeito não respondeu. Eu não sei se é intolerância, se é racismo ou o que é. Se fosse evangélico, eu tenho certeza de que não tinha cruz caída. Só cruz em pé”, disse mãe Jaciara.A ialorixá fez questão de esclarecer que tudo isso não se trata de uma guerra e que se deve proteger tanto as baianas quanto o acervo da igreja, do memorial e do museu da Misericórdia contra as agressões. Mãe Jaciara argumentou que se o som afeta o acervo do conjunto barroco, deve ser encontrada uma solução tecnológica, geográfica ou outra. “É importante a preservação tanto de um lado quanto de outro, tanto do batuque das baianas quanto do barroco com sua música suave”, disse.O advogado de mãe Jaciara informou que uma comissão foi criada, reunindo representantes do Movimento Negro, que envolve o candomblé e o Coletivo das Entidades Negras (CEN), para estudar o caso. “Essas entidades apóiam a Abam”, disse ele.
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